Os trabalhos de assessoria, pesquisa engajada e processo produtivo tem suas dinâmicas práticas orientadas por diversas abordagens político-pedagógicas, ou seja as organizações desenvolvem suas metodologias de trabalho.
Algumas metodologias já estão consolidadas após anos de elaboração e vivência, vão sendo revisadas ao longo do tempo. Outras vão sendo criadas conforme os desafios se apresentam. Em ambos casos, o registro de informações coletadas em atividades ou no cotidiano está presente.
Uma forma de registro das informações costuma ser em planilhas para favorecer as análises quantitativas. Ou, anotações em papel que depois são transferidas para planilhas. Estes dados auxiliam na avaliação de determinados contextos, indicam tendências e visibilizam situações.
Neste post, compartilhamos os trabalhos que realizamos que são suporte para metodologias de organizações.
Metodologias sistematizadas
A produção rural de uma agricultora envolve plantar, cuidar, colher, se abastecer, vender, trocar. Isto acontece todos os dias e com milhares de mulheres pelo Brasil. Quando esta dinâmica é (a)notada ao longo de meses e anos, se percebe uma considerável movimentação econômica e a manutenção da vida acontecendo.
A seguir apresentamos como aconteceu a digitalização de processos já sistematizados, como são os casos das Cadernetas Agroecológicas e a Metodologia LUME.
Cadernetas Agroecológicas
Buscando dar visibilidade e contribuir para a organização das mulheres, o Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata Mineira (CTA/ZM), em diálogo com agricultoras e organizações da agroecologia, criou a metodologia das Cadernetas Agroecológicas (C.A). Esta metodologia envolve três instrumentos: Caderneta, Mapa da Sociobiodiversidade e da Divisão Sexual do Trabalho e Questionário de Caracterização Socioeconômica (QCS).
As agricultoras recebem uma cadernetas de papel onde anotam o que vendem, trocam, se abastecem da sua produção. Uma facilitadora local recolhe as informações das cadernetas e registra os dados no Sistema Web das C.A. Mas antes de ter um sistema, tudo era anotado em planilhas e, com o aumentos de anotações sendo registradas, os dados ficavam dispersos, dependentes de pessoas com domínio técnico, e as agricultoras raramente tinham acesso direto às análises.
Em 2022, o CTA chamou a EITA para avançar no desenvolvimento de um sistema para as Cadernetas. Uma primeira etapa do trabalho foi a coleta e tratamento das planilhas com os registros históricos das Cadernetas Agroecológicas, em Excel, desde 2017. O outro passo foi desenvolver uma arquitetura combina Django no backend, ReactJS no frontend e DRF And React By Schema para a infraestrutura de API, base de dados PostgreSQL e relatórios gerados pelo Metabase. O layout foi criado em Figma, seguindo princípios de acessibilidade e usabilidade.
Em 2023, o CTA passou a usar a primeira versão do Sistema. Em 2025, houve uma nova etapa de implementação que envolveu criar a versão mobile, integrar novo módulo para os Questionários de Caracterização Socioeconômica e realizar oficinas de formação com as agricultoras para democratizar o uso do sistema e identificar a necessidade de melhorias.

LUME
O LUME é um método de análise econômico-ecológica de agroecossistemas, desenvolvido pela AS-PTA (Agricultura Familiar e Agroecologia). No trabalho realizado pela organização desde 1983, foi sendo consolidada esta metodologia que busca dar visibilidade à produção da agricultura familiar que muitas vezes são ignoradas pela teoria econômica convencional.
O método envolve entrevistas com as famílias agricultoras, percepção do local e das atividades do agroecossistema no tempo e território, compreensão da divisão do trabalho entre envolvidas/os. Todo o acompanhamento é em diálogo com as/os agricultoras/es, sendo que os dados e gráficos do LUME são usados nestas interações.
Conforme o Manual do Lume,
“De posse do conjunto de informações levantadas na entrevista, estas devem ser organizadas, a fim de facilitar a interpretação sobre a estrutura e o funcionamento do agroecossistema, bem como de sua trajetória. Esse ordenamento das informações segundo o padrão proposto pelo método é condição importante para a etapa seguinte, a análise dos atributos de sustentabilidade. A organização das informações logo após a realização da entrevista é recomendável, para que seja evitado o risco de perda da memória dos relatos.”
Para registrar o acompanhamento da assessoria técnica, a AS-PTA fazia uso de planilhas, a partir das quais, geravam gráficos tão característicos do LUME.

Em 2019, começamos o trabalho de desenvolver um sistema a partir das planilhas e do acúmulo de conhecimentos em torno do LUME. Sendo um sistema de uso intensivo, sempre há novidades a serem implementadas. Por exemplo, há um segmento de dados que gerou uma nova planilha, ainda fora do sistema.
O LUME é desenvolvido em Django e segue sendo mantido pela EITA.
Sistemas desenvolvidos em conjunto com a metodologia
Por vezes, a metodologia e o sistema vão sendo construídos ao mesmo tempo. Isto costuma acontecer quando a organização tem um projeto no qual um sistema é a ferramenta que cria as condições para realizá-lo.
Abaixo apresentamos como foi o desenvolvimento do Tô no Mapa mas vale registrar também o desenvolvimento do Castanhadora, em 2018, que recebeu prêmio da UNESCO e envolveu oficinas com castanheiras/os para o desenho do sistema.
Tô no Mapa
Em 2020, o Instituto de Proteção da Amazônia (IPAM) buscou a EITA para desenvolver um aplicativo para que povos, comunidades tradicionais e agricultoras/es familiares brasileiras/os realizem o automapeamento de seus territórios. Numa intensa interação entre IPAM, Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), Rede Cerrado e parceria com o Instituto Cerrados, em oficinas e reuniões, fomos construindo a metodologia e o sistema do Tô no Mapa.
Desde o início do uso do aplicativo Tô no Mapa, há uma integração com a Plataforma dos Territórios Tradicionais (PTT) do Ministério Público Federal. Isto contribui para o reconhecimento público de territórios mapeados, em situações de processos judiciais. Mais recentemente, o PTT está passando por reformulações e a tendência é se tornar mais integrado ao Tô no Mapa.
Com o passar do tempo e a ampliação do uso, foi necessário criar um serviço de suporte às/aos usuárias/os para responder dúvidas e também enviar código de acesso ao aplicativo, em caso de perda do acesso.
O sistema envolve um aplicativo de automapeamento desenvolvido em React Native, o painel de dados em Django e um site WordPress.

Compreensão coletiva de fluxos para arquitetura de sistema
Em 2024, a Alternativas para Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) nos apresentou o projeto para inclusão digital de mulheres e jovens da Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP). Era um projeto selecionado pelo SERPRO e que garantia o desenvolvimento de um sistema de apoio ao processo produtivo das quebradeiras de coco babaçu bem como a contratação de jovens da Associação para avançar na gestão da agroindústria.
Babaçuais
Para desenvolver o sistema, realizamos duas reuniões com a ASMUBIP para entender a demanda e como se organizam. Depois, fomos para o Bico do Papagaio para conhecer os grupos de quebradeiras integrantes da Associação. Estivemos em 4 comunidades e junto com cada grupo, vimos como é o processo produtivo, soubemos das condições de acesso à celular e internet e fizemos um passo a passo desde a colheita do babaçu até fazer o azeite ou o mesocarpo. Também fomos na agroindústria, onde aprendemos sobre as etapas que são feitas ali até a comercialização.

Nesta primeiro encontro com os grupos produtivos da ASMUBIP, foi possível fazer a especificação do sistema e definir coletivamente que o sistema abrangeria o registro da produção até os alimentos serem embalados na agroindústria. Com isto, as funcionalidades que foram desenvolvidas apresentam o acompanhamento dos estoques que vão sendo gerados, os contatos da agroindústria com os grupos, a automatização dos lotes, rastreamento dos alimentos e a geração de relatórios. Tudo em formato mobile e também desktop.
Nesta fase de especificação, já se desenhou a perspectiva de continuidade do desenvolvimento com o funcionamento offline e inclusão da etapa de comercialização. O principal aspecto que orientou este encaminhamento foi o prazo para entrega de 3 meses entre a especificação e a entrega, que demandou focar nas prioridades.
Em julho, voltamos ao Bico do Papagaio/ TO para a entrega do sistema e capacitação para o uso do aplicativo. Voltamos a algumas comunidades e encontramos com todas as integrantes da ASMUBIP na atividade de celebração do início do uso do Babaçuais. A instalação do aplicativo teve o importante apoio das/os jovens que atuam na agroindústria que se apropriaram do sistema e já foram instalando nos celulares das mulheres, explicando como funciona.


Durante os testes de protótipo e com o aplicativo em produção, percebemos o
sistema estável e consistente. As indicações de ajustes estiveram focadas em
termos ou pequenas correções no fluxo. As quebradeiras, técnicas/os e assessoria evidenciaram a importância do acesso à tecnologia digital e que consideravam que seria mais difícil o uso do aplicativo.
A facilidade do uso do sistema, certamente, é fruto do trabalho coletivo entre ASMUBIP,
APA-TO e EITA, na abertura e confiança que se construiu para aprendermos sobre o processo de trabalho das quebradeiras e do Entreposto.





