Um acervo líquido

Portal reúne material sobre o Semiárido produzido por movimentos populares e comunidade acadêmica

Um mergulho em narrativas de formatos os mais diversos. Um passeio por um acervo de mais de 400 vídeos, fotografias, textos e áudios. Uma fonte de pesquisas com atualização permanente. Lançado nesse primeiro semestre, o Portal Beiras d’Água é um convite para acessar o inesgotável mundo do Semiárido a partir de materiais produzidos pelos movimentos populares, militantes, organizações sociais e academia. Pode ser um ensaio fotográfico sobre as culturas dos povos ribeirinhos e sua luta em defesa do São Francisco; uma denúncia sobre os impactos da construção de uma usina nuclear no interior de Pernambuco; ou um documentário sobre as bordadeiras de Pirapora. Você escolhe por onde começar o percurso.

Aqui, o fio condutor é a água e suas muitas referências. A ideia de criar um portal para abrigar narrativas sobre o tema surgiu durante a realização de uma pesquisa sobre comunidades vulneráveis e povos atingidos pelo projeto de transposição do Rio São Francisco, coordenado pelo pesquisador André Monteiro, do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (Fiocruz-PE). “Pensamos em compartilhar saberes e as muitas imagens e linguagens produzidas pelos territórios na tentativa de continuar refletindo sobre as políticas e os projetos voltados para o Semiárido”, disse André, durante evento de lançamento do portal, em Recife, no final de março.

Estão lá as ameaças do agronegócio e os conflitos socioambientais, mas também as histórias de resistência, os projetos alternativos, a agroecologia, a alegria que água representa para o povo do Semiárido, as muitas formas de reinvenção em meio a seca. Como no vídeo realizado por jovens do Sertão de Minas Gerais, próximo ao Rio São Francisco, sobre as veredas da região e seus encantos. Ou ainda a história do projeto Espelho d´Água, uma espécie de rede de comunicação visual e poética que nasceu de oficinas com comunidades ribeirinhas do São Francisco. No final de cada oficina, os alunos elegeram suas melhores fotos que, impressas, transformaram-se em cartão postal. As imagens eram enviadas para uma outra comunidade ribeirinha participante do projeto, com dizeres no verso do postal, envolvendo o imaginário do rio na comunidade. O resultado da troca de correspondências pode ser conferido em uma animação de 17 minutos.

O objetivo do Beiras d’Água, como anunciou Bernardo Vaz, integrante da equipe do portal, é tentar disponibilizar em um único local todo o conteúdo relacionado a esses territórios que já existem de maneira dispersa na Internet. São materiais que podem ser encontrados em plataformas como Youtube, Flickr e vimeo — mas também muita coisa produzida pelos próprios movimentos sociais que sequer estavam disponíveis na web — e que agora podem ser acessados pelo portal.  “Queremos contribuir para um olhar mais amplo a partir do que emerge dos territórios com a força dessas narrativas”, completou Bernardo, pesquisador em artes visuais em projetos que fazem uma interface com a saúde ambiental.

Seleção e raridades

Navegando pelo Portal, você pode explorar a aba Curadorias. Funciona assim: periodicamente, o Beiras d’Água convida um nome para eleger, entre os títulos disponibilizados pelo acervo, a sua seleção particular, produzindo a partir daí uma nova narrativa. A médica sanitarista e pesquisadora Lia Giraldo foi a primeira a sugerir os vídeos. Em seu recorte, levou em conta aqueles que entrelaçam as culturas ameaçadas com a resistência dos povos do sertão. “Que evidenciam a importância do rio e a necessidade de protegê-lo tendo como protagonismo esses povos. Que sofrem violência e toda ordem de injustiças. Mas que constroem também sua história de resistência. Anunciam sua sabedoria para lidar com o rio, com a seca e com a caatinga”, escreveu a pesquisadora, que indicou 13 vídeos, entre eles, “Colher Águas, Plantar Vidas”. O documentário sobre a captação, armazenamento e utilização das águas pluviais, fluviais e subterrâneas pelas famílias de agricultores no semiárido apresenta ações do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), desenvolvido pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).

Para acessar todo o material disponível, é possível usar filtros de busca diversos por tema ou formato narrativo, por exemplo. Há produções com caráter de denúncia, como a reportagem “As secas e as indústrias sedentas”, realizada pelo coletivo Nigéria, de Fortaleza, sobre uma das maiores obras de distribuição dos recursos hídricos do Ceará – o Eixão das Águas – localizado próximo ao canal de transposição do São Francisco. Na reportagem, você assiste à dificuldade de acesso à água por parte das comunidades enquanto o setor industrial tem subsídios e demanda 4 mil litros por segundo. Ainda como denúncia, há inúmeros vídeos a partir da investigação do Greenpace sobre a contaminação radioativa em amostras de água usada para consumo humano, coletadas na área de influência direta da mineração de urânio no município de Caetité, na Bahia (BA).

Há também raridades. Em 1938, durante a Missão de Pesquisas Folclóricas, foi realizado um documentário intitulado “Mário de Andrade e os primeiros filmes etnográficos”, de Luis Saia, depois recuperado pela Cinemateca Brasileira. O Portal selecionou no Youtube um trecho do documentário que corresponde ao primeiro registro da “dança dos praiás”, ritual dos indígenas Pankararu do sertão de Pernambuco. Tão valioso quanto o filme é um áudio de mais de 4 minutos com uma gravação de uma toante do Mestre Anadoré, na voz de Maria Pastora, realizada também durante a Missão, no Brejo dos Padres (PE). “Navegar” é preciso – e o verbo utilizado para mover-se pela web nunca foi tão adequado.

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