Eita: novas tecnologias para novas realidades

Fonte: http://conexaoplaneta.com.br/blog/novas-tecnologias-novas-realidades-eita/

Sempre pensamos como as novas tecnologias têm ajudado a conectar pessoas, a ampliar os horizontes, aproximando iniciativas, projetos e ações em sinergia de diversas partes do país e do mundo. Mas essa ‘polianice’ deixa de lado o fato de que a própria tecnologia em si, a forma como é construída, já influencia o usuário para determinadas finalidades e usos.

Quem dá o alerta é Daniel Tygel, um dos integrantes da Cooperativa de Educação, Informação e Tecnologia para Autogestão, a Eita: “Se formos pensar em transformação da sociedade, temos também que pensar em ferramentas, tecnologias que sejam bem apropriadas a essa outra realidade que a gente quer construir. Quando se está criando uma tecnologia existe uma teleologia, uma finalidade no que se está fazendo, que acaba determinando a usabilidade desse próprio sistema. Uma sociedade pautada na vida e não no lucro, na cooperação e não na competição, implica em tecnologias diferenciadas. Não temos os milhões de dólares que são investidos para desenvolver o Facebook, mas estamos partindo de outros paradigmas para construir uma tecnologia”.

A Eita tem justamente como missão fortalecer os movimentos sociais populares por meio da construção de tecnologias de informação livres e metodologias participativas para seu uso e apropriação. É deles o portal Cirandas, iniciativa do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, que tem também como objetivo oferecer ferramentas na internet para promover a articulação econômica, social e política de quem vive da Economia Solidária ou tem interesse por ela. Para estruturar o portal foi criado, em parceria com a cooperativa Colivre (empreendimento solidário de desenvolvimento de softwares livres) o software Noosfero, referência em softwares livres no Brasil e utilizado também em outros países.

Os objetivos do Cirandas são potencializar o fluxo de saberes, produtos e serviços da economia solidária; oferecer ferramentas para constituir e consolidar redes e cadeias solidárias; ser espaço de divulgação da economia solidária e de busca de produtos e serviços para consumidores; permitir a interação entre vários atores em comunidades virtuais e espaços territoriais, temáticos e econômicos.

“O Cirandas é uma plataforma web, desktop, responsiva, adaptada para celulares, mas feita no paradigma da internet. O ator chave aqui são os empreendimentos de economia solidária. O portal é focado na vida, no dia a dia, nas demandas desses empreendimentos, estimulando a comercialização e a circulação de produtos e serviços”, define Daniel.

Boa parte dos integrantes do Eita atua ou já atuou em movimentos sociais progressistas. Durante esse processo, eles percebiam a existência de um problema grande, uma dificuldade na relação entre a tecnologia e as instituições que precisavam usá-la. De modo geral, aprovava-se algum tipo de projeto e era preciso contratar alguém para executar, quase sempre uma empresa de tecnologia acostumada a lidar com o universo empresarial, sem conseguir entender a perspectiva política e o horizonte de transformação social envolvido naquela tecnologia. Ou essa tecnologia se tornava num problema – porque gerava mais trabalho para as organizações -, ou por outro lado se tornava uma dependência infinita de alguma empresa de tecnologia que desenvolvia um software proprietário e mantinha a organização refém dessa tecnologia.

“Nós tínhamos muito interesse nessa perspectiva das tecnologias da informação. De conseguir potencializar as lutas organizadas em rede, e para isso há uma necessidade muito grande de organização da ação, de processos de gestão da informação para uma melhor ação. E também, por outro lado, de dar visibilidade às iniciativas e soluções que estão sendo propostas pelo Brasil. Por isso a gente fala que a Eita não é simplesmente desenvolvimento de software, mas sim uma ponte entre a necessidade de transformação da sociedade, o horizonte da luta dos movimentos sociais e a tecnologia da informação”, define Daniel.

Responsa

A minha curiosidade pelo trabalho da Eita veio por acompanhar outro projeto, o Mapa do Consumo Solidário, sobre o qual já falei aqui nesse blog – e que inclusive já está com site no ar. A Eita é parceira do projeto, e em conversas com uma das responsáveis pelo Mapa, a Erica Ribeiro, ela mencionou o portal Cirandas e todo o trabalho que já vinha sendo realizado pela cooperativa.

E aí descobri o Responsa, um aplicativo em desenvolvimento pela Eita em parceria com o Instituto Kairós e outros atores cujo foco é o consumidor. Logo me interessei em ser tester do app e ainda estou descobrindo seu potencial e funcionalidades.

“O Responsa tem como foco estimular o encontro, debate, discussão das pessoas da sociedade na relação com o consumo responsável. Contribuir para que elas possam encontrar outras pessoas que reflitam sobre o assunto, lançar desafios, responder as perguntas umas das outras, se encontrar em feiras, lojas, centrais de consumo responsável. O aplicativo é baseado muito fortemente nas tecnologias mobile, na vida, no cotidiano do consumidor e da consumidora. Ele estimula a proatividade das pessoas que estão consumindo”, define Daniel.

Focado em celulares Android (em 2015 as vendas de celulares com esse sistema operacional ficaram na casa dos 90% no Brasil), o Responsa pretende, de maneira leve, intuitiva e divertida ajudar as pessoas a encontrarem iniciativas relacionadas ao consumo responsável, indicar novas, compartilhar dúvidas e dicas e ainda criar atividades e encontros relacionados ao tema. Tudo pelo celular.

Ainda em teste, o aplicativo começa tendo como ator chave quem está na ponta do consumo e pretende avançar, até o final desse ano, início de 2017, para incluir também os empreendimentos de economia solidária como atores na promoção da relação com os consumidores.

A Eita está envolvida em muitos outros projetos, como o ranking Proprietários do Brasil, desenvolvido e mantido desde 2012 em parceria com o Instituto Mais Democracia, com informações sobre a propriedade de empresas no país. Esse trabalho foi financiado coletivamente por mais de 800 pessoas.

A cooperativa implementou e realizou a gestão do Portal do Observatório da Política Nacional de Saúde do Campo, da Floresta e das Águas (OBTEIA), que visa avaliar e contribuir para implantação dessa política por meio de uma teia de saberes e práticas envolvendo uma grande variedade de atores.

Também estão entre os projetos realizados uma plataforma colaborativa e site das incubadores que assessoram empreendimentos de economia solidária na região da Grande Porto Alegre; a plataforma Escambo, que promove trocas de produtos, serviços e saberes entre Pontos de Cultura; o mapa de educadores e educadoras da economia solidária; os sites do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e da Associação Brasileira de Agroecologia, dentre outros.

Os integrantes da Eita se conheceram em ambientes de lutas dos movimentos sociais, sempre tentando ajudar e apoiar na área de tecnologia da informação. Vários deles são ligados aos movimentos de economia solidária e tinham o desejo de que essa ação coletiva pudesse ser também sua forma de viver, unindo o ideal de transformação da sociedade com a realização profissional. E foi assim se desenhando a Eita, nos últimos cinco anos.

“Nós não somos todos ligados a desenvolvimento de software. Há pessoas ligadas a ciências sociais, a estudos mais políticos. E todos nós temos alguma trajetória em diferentes tipos de movimentos sociais. Desde ciclismo até a luta pela reforma agrária. É daí que surge nossa ação”, diz Daniel. O objetivo final é mesmo desenvolver tecnologias livres que sirvam para potencializar, fortalecer e dar corpo aos movimentos sociais que já estão acontecendo.

“Os atores estão aí, em campo, são legítimos, e estão construindo as soluções. A gente quer contribuir com as tecnologias da informação em duas dimensões: a cozinha e a vitrine. A cozinha é a gestão interna da informação para apoiar as organizações, a sistematização e a consolidação das ações. A vitrine significa apoiar os processos de visibilização dessas alternativas e também das críticas e denúncias ao sistema econômico que vivemos hoje. Todos nós queremos uma outra sociedade, um outro mundo. E a diversidade de nossas linhas de ação se cruza nessa utopia de uma sociedade baseada e pautada na justiça social, na preservação do meio ambiente, na centralidade da vida e não no lucro, e no conhecimento livre”, define Daniel.

EITA_trat

Fotos: Portal Aprendiz e Eita

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas Eu Não Sou de Plástico e, em parceria com a SVB, a Segunda Sem Carne. Colaborou com a revista Página 22 da FGV e com a Unisol Brasil. Há 3 anos é coordenadora de comunicação da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

 

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